Painel 2

2. Formação de Professores em Contexto de Cooperação Internacional: Desafios, Oportunidades e Riscos

                                                                                     

  •  Patrícia Albergaria Almeida Universidade de Aveiro – Departamento de Educação, Centro de Investigação Didática e Tecnologia na Formação de Formadores – Portugal patriciaalmeida@ua.pt
  • Betina Lopes Universidade de Aveiro – Departamento de Educação, Centro de Investigação Didática e Tecnologia na Formação de Formadores – Portugal blopes@ua.pt

A educação e, consequentemente, a formação inicial e contínua de professores tem constituído uma das prioridades da cooperação portuguesa. A proximidade linguística, assim como a partilha da língua portuguesa como língua oficial de todos os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), e também de Timor-Leste, desde 2000, têm-se constituído como fatores fundamentais para o desenvolvimento e fortalecimento desta cooperação a vários níveis, e também, de forma bem vincada, a nível da educação. Com este painel pretende-se debater o papel que a cooperação portuguesa tem desempenhado na formação de professores dos PALOP e de Timor-Leste, nos vários níveis de ensino (não superior e superior). Pretende-se abordar e discutir variadas temáticas associadas à formação de professores dos PALOP e de Timor-Leste, nomeadamente: (i) a adequação e modelação da formação nos diversos contextos em que tem sido desenvolvida, quer em Portugal quer nos países referidos; (ii) a diversidade (conceptual e metodológica) de modelos de formação adotados; (iii) o impacto das diversas formações realizadas (nos formandos, mas também a nível dos formadores); (iv) os obstáculos/desafios identificados pelos formadores nos diversos países e contextos de formação. Pretende-se, igualmente, que este painel constitua uma oportunidade para a partilha e discussão de resultados de investigações que se foquem na formação de professores dos PALOP e de Timor-Leste. Enquanto espaço de partilha almeja-se que este painel crie oportunidades para o estabelecimento de redes de investigação e parcerias de apoio/suporte à conceptualização e implementação de modelos de formação passíveis de ultrapassar os obstáculos identificados.

Comunicações

Desenvolvendo orientações curriculares para a educação de infância em São Tomé e Príncipe – os desafios de um trabalho colaborativo

 Gabriela Portugal Universidade de Aveiro gabriela.portugal@ua.pt

 Nesta comunicação pretende-se partilhar um projeto, iniciado em Outubro/Novembro de 2011, que visa a construção de um referencial curricular para educação de infância em São Tomé e Príncipe e a consequente melhoria das práticas pedagógicas dos seus profissionais. Apoiar o desenvolvimento de um currículo no contexto de um país africano pobre, onde a generalidade dos seus educadores não tem formação e continuadamente enfrenta dificuldades e pobreza extrema, assume-se como um trabalho difícil e, contudo, extremamente estimulante. O desenvolvimento do projeto envolve um trabalho colaborativo entre agentes da UNICEF, Ministério da Educação de São Tomé e Príncipe, a consultora/investigadora e profissionais do terreno, pressupondo diferentes etapas:

  1. Caracterização inicial da situação;
  2. Construção de versões provisórias do referencial curricular para a educação de infância, atendendo à realidade local, aos documentos oficiais existentes (lei de bases do sistema educativo), perspetivas e opiniões de diferentes parceiros, dificuldades e potencialidades identificadas;
  3. Formação e constituição de uma equipa de supervisão local que acompanha e monitoriza o processo de contextualização do referencial curricular ao contexto santomense;
  4.  Avaliação do impacte do referencial curricular no terreno.

Ao longo do projeto o respeito pela diversidade de opiniões e de perspetivas, bem como o bem-estar e motivação de todos os envolvidos, têm-se assumido como valores e atitudes considerados cruciais ao bom desenvolvimento dos trabalhos. Do projeto, ainda em desenvolvimento, podemos desde já partilhar algumas reflexões e dados obtidos relativos às primeiras etapas do trabalho, nomeadamente no que remete para a caracterização da realidade e necessidade de os educadores modificarem práticas profundamente enraizadas, passando a focalizar-se no novo referencial curricular quer ao nível da planificação, quer ao nível da avaliação das práticas educativas, no contexto de um trabalho de equipa colaborativo e continuado. Também, independentemente dos resultados de avaliação do impacte do referencial no terreno, podemos desde já afirmar que a sustentação da dinâmica e da estrutura de acompanhamento e supervisão implementada implica a existência de um contexto encorajador e estimulante, bem como a priorização de adequada formação em educação de infância, o que implicará vontade e investimento políticos.

Palavras-chave: educação de infância em São Tomé e Príncipe; orientações curriculares; trabalho colaborativo

Formação de Professores de Ciências em Timor–Leste: a relevância do trabalho prático e experimental

Mariana Martinho Centro de Investigação Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF), Departamento de Educação, Universidade de Aveiro, Portugal marianamartinho@ua.pt

Patrícia Albergaria-Almeida Centro de Investigação Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF), Departamento de Educação, Universidade de Aveiro, Portugal patriciaalmeida@ua.pt

Betina Lopes Centro de Investigação Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF), Departamento de Educação, Universidade de Aveiro, Portugal blopes@ua.pt

A Educação em Ciências desempenha um papel decisivo no desenvolvimento de um país (Martins, Veiga, Teixeira, Tenreiro-Vieira, Marques Vieira, Rodrigues & Couceiro, 2007; Osborne & Dillon, 2008; Veríssimo & Ribeiro, 2001). Timor-Leste é a mais jovem nação do mundo, tendo-se constituído como país em 2002. Após duas fases de ocupação colonial, e na sequência de períodos de extrema violência entre 1999 e 2002, praticamente todas as infraestruturas foram destruídas e grande parte da mão-de-obra qualificada foi perdida em todos os sectores de atividade, incluindo a Educação (UNDP, 2011). Reconhecendo os enormes desafios inerentes ao reforço e à revitalização de um sistema educativo (Jallade, Radi & Cuenin, 2001), o governo timorense tem estabelecido protocolos de cooperação com instituições portuguesas, tais como a Universidade de Aveiro. Entre as várias medidas implementadas, destacam-se os programas de formação para o corpo docente nos vários níveis de ensino (não superior e superior). De Novembro a Dezembro de 2011 decorreu, no Instituto Nacional de Formação de Docentes e Profissionais da Educação (INFORDEPE), localizado em Díli, o último módulo de formação da 8ª edição do bacharelato noturno, tendo sido lecionadas 300 horas de formação a cerca de 300 professores nas áreas da Biologia, Química, Física e Matemática. Apesar dos constrangimentos logísticos, cerca de 30 horas (10%) do curso foram dedicadas à exploração de atividades de natureza prática (laboratorial e de campo), e também de trabalho experimental, na medida em que estes são fundamentais na educação científica. Promovem a curiosidade e a dúvida no estudante, assim como a reflexão partilhada. Permitem, igualmente, desenvolver competências associadas às capacidades de recolha, tratamento e interpretação de informação, assim como à problematização, formulação e verificação de hipóteses plausíveis, e ainda à argumentação (Dourado, 2001; Veríssimo & Ribeiro, 2001). No decorrer das atividades implementadas ao longo do curso foi notória a grande carência de formação dos professores timorenses neste domínio, aparentemente justificada pela forte cultura de ensino transmissivo. A leitura e cópia de textos, privilegiando-se a memorização, correspondem às estratégias de ensino e de aprendizagem mais comuns (Earnest, 2003). De fato, muitos professores nunca tinham manipulado material de laboratório, nem redigido um relatório de uma atividade prática ou experimental. Esta comunicação propõe-se a descrever e ilustrar as atividades implementadas no contexto do curso supramencionado, enfatizando-se as principais limitações e os principais desafios encontrados. Almeja-se desta forma contribuir para uma reflexão sustentada sobre a importância de integrar o ensino experimental e prático nos modelos de formação inicial e contínua dos professores timorenses de forma a ultrapassar as dificuldades encontradas.

Palavras-chave: formação de professores timorenses, educação em ciências, trabalho prático e experimental

Culturas de apoio a professores em contexto de fragilidade educativa: algumas reflexões e lições da Guiné-Bissau

Júlio Gonçalves dos Santos Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Viana do Castelo Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto jgsantos@ese.ipvc.pt

 Rui da Silva Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Viana do Castelo Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto
rdasilva@ese.ipvc.pt

 Carolina Mendes Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Viana do Castelo Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto carolinamendes@ese.ipvc.pt

 Num contexto de fragilidade educativa, como é o caso da Guiné-Bissau, é fundamental apoiar a transição para um sistema educativo mais estável a nível administrativo, financeiro e pedagógico de uma forma holística. Esta comunicação baseado na larga experiência do Programa de Apoio ao Sistema Educativo da Guiné-Bissau (PASEG)[1] pretende evidenciar uma estratégia de formação de professores – os Grupos de Apoio Pedagógico (GAP), que aposta na capacitação e formação para o desenvolvimento humano e profissional, numa perspetiva de valorização dos contextos, do conhecimento local, partindo das escolas como unidades de intervenção, de investigação, do reforço do papel dos agentes educativos, da coresponsabilização e da criação de um capital de confiança. Salientam-se algumas lições preliminares que dizem respeito à institucionalização e apropriação pelas escolas de inovações, assim como à sua continuidade para além das iniciativas sugeridas por intervenções externas.

Palavras-chave: GAP, PASEG, Guiné-Bissau

A utilização do eLearning no desenvolvimento de um curso de doutoramento
em Ciências da Educação em Moçambique
. Estudo de caso da colaboração entre a Universidade Católica Portuguesa e a Universidade Católica de Moçambique

 

Isabel Baptista Universidade Católica Portuguesa
ibaptista@porto.ucp.pt
José Lagarto Universidade Católica Portuguesa
jlagarto@ucp.pt
José Matias Alves Universidade Católica Portuguesa
jalves@porto.ucp.pt
Vânia Sousa Lima Universidade Católica Portuguesa
vlima@porto.ucp.pt

A oportunidade de realizar um doutoramento em Ciências da Educação nasceu da necessidade de formação de docentes da UCM e do desejo da UCP em colaborar ativamente no desenvolvimento dos quadros da instituição irmã. Num processo solidário mobilizaram-se recursos, vontades e predisposições que permitiram superar os desafios que este projeto colocou. Primeiro, foi a vontade por parte de candidatos de instituições públicas moçambicanas (Instituto Nacional de Estatística, Academia Militar, Universidade Lúrio) em frequentar este curso, oportunidade única de formação nas suas vidas. Segundo, foi a necessidade de limitar o grupo, em princípio previsto para 16 doutorandos mas que, por vontades, pressões e evidentes necessidades, acabou por se fixar em 26 elementos. Terceiro, foi a distância física a que todos os intervenientes estariam sujeitos durante os momentos de aprendizagem. Quarto, a evidente heterogeneidade do grupo, com pontos de partida e histórias de vida muito diferentes o que iria colocar problemas acrescidos e desafios porventura enriquecedores ao desenvolvimento harmonioso do processo formativo. A organização do curso de doutoramento em Nampula, com docentes da UCP, implicava a concepção de um modelo de formação que garantisse que o currículo desenvolvido em Portugal fosse, também neste contexto, integralmente cumprido. Assim, e tendo em conta que a totalidade da lecionação não se poderia fazer de forma presencial, definiu-se um modelo de ensino a distância, em regime de blended learning, que previa duas semanas de formação presencial no início de cada semestre e formação online entre as sessões presenciais. As sessões presenciais tinham como objetivo introduzir as temáticas que os doutorandos teriam de desenvolver no período subsequente de trabalho online, bem como o acompanhamento individual em regime tutorial. O modelo formativo, centrado em metodologias de ensino a distância em b-learning, parecia assim ser o que melhor se adequava ao contexto formativo, nomeadamente a existência de alunos e docentes separados fisicamente no espaço geográfico, a necessidade imperiosa de realizar a formação, o estabelecimento de uma relação administrativa e pedagógica clara e ainda a possibilidade de uso da Internet para funções comunicacionais. A utilização deste regime teve em conta a proficiência e o acesso que os alunos tinham de ferramentas da Internet e conduziu à lecionação de uma unidade complementar para garantir o sucesso do processo comunicacional associado à formação desenvolvida. A planificação e o desenvolvimento curricular incluiu a realização de atividades programadas centradas na realidade moçambicana e tiveram nos doutorandos os seus principais autores.

Palavras-chave:  cooperação para o desenvolvimento, formação de docentes universitários, elearning